comida de hospital
você tem sede de quê? você tem fome de quê?
check in
a gente piscou e já é quase março. as promessas que tinham o prazo “só depois do carnaval” estão aí na nossa frente. o que vamos fazer com elas?
histórias à beira leito
Era uma manhãzita de sexta-feira tipo de quando a gente acorda feliz porque o fds chegou. ”bip” o barulho do crachá liberando minha entrada no hospital, e chego na unidade onde trabalho, uma UTI no Pronto Socorro. uma das ideias de voltar a trabalhar no hospital era realmente desenvolver (ou calibrar?) o senso de urgência, lembrar que racionalizar é importante, mas a psico sempre dá aquela lembrada de dar espaço para o sentir (ainda mais importante).
-“vamos extubar o leito 9, vamos fono!”
disse a fisioterapeuta do dia.
extubar nada mais é que tirar o tubo de um paciente que precisou de ventilação mecânica pra respirar e continuar vivo. viver num pronto-socorro é beirar a vida e a morte, a morte e a vida a todo o tempo.
mas o que uma fono tem a ver com tudo isso?
existe uma especialidade da fono que quase ninguém conhece. a mesma estrutura que nos ajuda a falar nos ajuda a respirar e a comer. meu papel é assegurar que os pacientes vão poder comer pela boca ou não. é confirmar se a catraca das vias respiratórias está funcionando bem ou não. se o alimento tá indo pro seu destino final (estômago) ou está querendo dar uma passeada pelo pulmão e fazer morada lá. mal sabe ele (o alimento/líquido) que essa morada é onde a gente volta pra aquele assunto da beira. piora clínica, pneumonia... aonde é pra ter ar não é pra ter comida. cada um no seu quadrado, por gentileza!!!!! bora colaborar?
mas colaborar não é tão simples assim. existem muitos fatores que impactam um simples pedido:
- “quero água”
a frase nº 1 dos pacientes pós-extubação. por mais que recebam por outra via (uma sonda no nariz), o que é ficar teeeempo sem sentir aquele líquido refrescante visitando todos os lugares e espaços da sua boca, que você nem lembra que existe? lembrar daquele alívio que é poder matar a sede.
você tem sede de quê?
eu tenho sede de viver.
já ouvi que já vivi muito pra uma pessoa de 30 anos.
mas não é esse o objetivo de estar vivo? viver? viver o que é nos apresentado, seja bom ou seja ruim?
minutos depois, extubação realizada com sucesso e uma das primeiras coisas que ele disse foi:
- muito obrigado! agora meu filho vai poder me entender. só dava pra apontar ou fazer joinha, ninguém me entendia.
detalhes da vida. comunicar nunca foi tão importante e necessário. ele não pediu água, ele agradeceu. obrigado. ainda estou com o muito obrigado na minha cabeça.
depois da extubação, temos que esperar 24 horas para avaliar se o paciente realmente pode comer e beber pela boca. o tempo de tubo pode impactar muito a sensibilidade das estruturas. aquele assunto da beira, lembra? massss dei um jeitin e fiz uma higiene oral com gaze úmida geladinha pra dar um alívio com segurança e ainda me pediu para limpar seus olhos.
a humanização no ambiente hospitalar tem se perdido, e muito. tento encontrar escondida nos leitos, nas gavetas, atrás ou embaixo das cadeiras… tem sido difícil. profissionais de saúde esgotados. instituições que não favorecem a saúde mental e condições de trabalho.
é interessante a jornada de cada caso que eu vivo no trabalho presencial, a dinâmica familiar, as reações, a forma que cada um colabora, desorganiza, a escuta ativa presente ou ausente. o olhar. olhar perdido, longe, pensando, reflexões que só um contexto hospitalar pode oferecer.
a palavra paciente é bem literal. me veem de jaleco achando que eu sou a médica e já me perguntam:
- “quando posso ir pra casa?”
é interessante como cada um lida com o que a vida apresenta.
dezembro, mês de agenda cheia, numa terça-feira, estava eu e a paciente (que era vegana) do leito 10 com 2 dias de extubação conversando sobre a receita de leite de aveia e fomos interrompidas pela assistente social. ela disse que o marido não estava encontrando os acessórios de cabelo para a apresentação do balé da filha. acompanho a videochamada e vivencio o encontro das emoções desencontradas de um esposo que não tem a parceira para arrumar a filha para o espetáculo.
o “espetáculo” de um pai sentindo na pele o “papel” de ser mãe.
me pergunto o que o hospital faz comigo, se ele me ensina ou me desgasta. se ele me desumaniza ou me lembra o que é ser humano. logo eu, que gosto de viajar pelo mundo, essa temporada tem sido viajar no mundo dos outros e seus imprevistos. de saúde.
a viagem onde cada caso é uma história. a história onde cada detalhe conta para o diagnóstico e o tratamento. história onde o protagonista e o vilão são a mesma pessoa na maioria das vezes. deve ser por isso que mudei radicalmente meus hábitos.
viajar pelos corredores do hospital é visitar lugares nunca conhecidos, seus e dos outros. é receber pessoas que nunca entraram ali. é ouvir. ouvir com o olhar, com um copo de água, em alguns momentos te roubam um abraço. é acolher o que sentem. esclarecer o que nunca foi explicado ou ouvido falar. ou pelo menos, deveria ser.
até porque,
título não abraça ninguém.
mel
📖 estou participando de um clube do livro e estamos lendo esse de ficção, tá interessante!
🐰 se você também gosta do Benito (Bad Bunny), toma aqui a playlist da tour que ele está fazendo. fui no show e não consigo parar de ouvir, help!
💆se você gosta de brasilidades, só desfruta do mais novo vídeo do tiny desk brasil



